Falar de saúde é falar de autoconhecimento e dignidade. Acessar os serviços de saúde é, ou, pelo menos, deveria ser, um direito de todos. Mas, quando falamos da população trans, sabemos que a realidade não é bem assim. Muitas pessoas sofrem preconceito, humilhação e violência ao buscar um direito básico. Seus corpos não são reconhecidos, seus nomes sociais muitas vezes são negados e por aí vai…
O impacto disso? Abandono dos serviços de saúde, falta de prevenção, ausência de acompanhamento e, como consequência, o adoecimento.
Romper esse ciclo requer mais do que garantir o acesso aos serviços de saúde; requer criar um ambiente em que as pessoas trans se sintam respeitadas, acolhidas e cuidadas. Receber o convite para escrever este artigo me trouxe a alegria de perceber que o LACLISO está alinhado com esse propósito: construir um espaço de respeito, confiança e cuidado para a população trans de Sobral e região.
No contexto da saúde preventiva, as consultas e os exames deixam de ocupar apenas o lugar de diagnosticar doenças e passam a ser ferramentas para promover qualidade de vida e identificar precocemente alterações que, muitas vezes, ainda não causam sintomas.
“Qual exame eu devo fazer?” Essa é uma pergunta que escuto com frequência, e a resposta é simples: depende. Não existe receita de bolo quando falamos em prevenção; ela precisa ser individualizada. É claro que muitos exames fazem parte da rotina de praticamente todas as pessoas, mas diversos outros devem considerar fatores como idade, sexo atribuído ao nascimento, anatomia presente, uso ou não de terapia hormonal, práticas sexuais, fatores de risco, como tabagismo, consumo de álcool e outras substâncias, além do histórico familiar.
Para quem utiliza terapia hormonal, por exemplo, o acompanhamento laboratorial permite avaliar tanto a eficácia quanto a segurança do tratamento, monitorando parâmetros como hemograma, função hepática e renal, perfil lipídico, glicemia e, quando indicado, os níveis hormonais.
No rastreamento das infecções sexualmente transmissíveis, exames como as sorologias fazem parte da rotina preventiva para todas as pessoas sexualmente ativas. Já outros rastreamentos, como aqueles relacionados ao HPV, dependem de alguns fatores, não sendo iguais para toda pessoa trans.
Cuidar da saúde não deve significar enfrentar constrangimentos nem precisar justificar quem se é. Deve significar ter acesso a uma assistência qualificada, baseada em evidências científicas e livre de discriminação. Quando a população trans encontra serviços preparados para oferecer esse cuidado, a prevenção deixa de ser uma exceção e passa a ocupar o protagonismo na promoção da saúde, da autonomia e da qualidade de vida.

DR. MICHEL ABDALLA
CRM/CE 13604 l RQE 7589